A Escola Básica do 1.º Ciclo (EB1) António Torrado, integrada no Agrupamento de Escolas n.º 2 de Abrantes (AEN2Abrantes), está inserida num território percebido como multicultural e socialmente desfavorecido, pelo que tem sido alvo de intervenções e preocupações relacionadas com a expressão de problemas a nível do sucesso educativo das crianças que a habitam e da ordem escolar (frequência de comportamentos disruptivos, relatos de maiores níveis de conflitualidade dentro e fora da sala de aula do que noutros contextos).
Situada na cidade de Abrantes, a escola, um edifício amplo e de espaço exterior generoso, está situada num bairro residencial com elevada densidade populacional e de onde provém uma parte significativa da população escolar. No ano letivo 2023/24, por exemplo, recebeu cinquenta crianças de famílias imigrantes provenientes de vários países, o que acrescentou complexidade às problemáticas já identificadas, como a baixa escolaridade de alguns encarregados de educação, dificuldades a nível da sua inserção/integração profissional e outras vulnerabilidades de natureza socioeconómica de muitos dos alunos e que, inevitavelmente, se refletem na sua qualidade de vida, na sua disponibilidade e motivação para aprender.
Foi neste contexto, na continuidade de outras intervenções similares, que surgiu o Projeto Reinvent´ART-E1, uma intervenção baseada no pressuposto de que a Arte e a Educação Artística são caminhos frutuosos no domínio da transformação social e educativa. Com a ambição de ir mais longe no que diz respeito à inovação pedagógica – procurando ser consequente em relação ao que “não funciona” nas práticas pedagógicas cristalizadas e rotineiras, procurou-se reinventar modelos de ensino-aprendizagem, evitando-se a todo o custo “fazer mais do mesmo” à espera de resultados diferentes. De facto, tendo como âncora a parceria estratégica com a Escola Superior de Educação de Santarém (ESE|IPSantarém) – que, para além de exercer funções de consultoria, monitorização e de dinamização de sessões temáticas com o grupo de pais, apoiou o projeto a nível da formação contínua dos docentes nele implicados –, implementou-se um conjunto de medidas distribuídas por cinco eixos: i) a valorização e a integração curricular da Educação Artística; ii) a individualização e a proximidade a cada criança e sua família (reuniões mensais, dinamização de um grupo de pais); iii) a diversificação dos cenários de aprendizagem (salas amplas e com espaços de trabalho temático); iv) o trabalho colaborativo (entre alunos, mas também entre docentes que trabalham em regime de codocência; v) a educação alimentar. Os resultados referentes à implementação do projeto com duas turmas de 1.º ano – que trabalham em conjunto numa mesma sala –, ainda que desafiados por múltiplas resistências e alguns obstáculos, dão conta de progressos e desenvolvimento a nível da autonomia dos alunos em múltiplas frentes, salientando-se sobretudo que não importa só o que aprendem, mas também (sobretudo?) como aprendem, evidenciando-se um conjunto de competências pessoais e sociais que desenvolveram ao experimentar novos modos de contactar e explorar o currículo. Competências estas que reverterão, a seu tempo, para o trabalho escolar propriamente dito, com ganhos evidentes no seu bem-estar e relação com a escola e com os saberes escolares.
Todavia, o trabalho educativo é, por natureza, um labor permanentemente inacabado. As dinâmicas de organização escolar, nomeadamente as dificuldades em recrutar e manter docentes afetos ao projeto com um perfil e motivação ajustados aos princípios mobilizados, obrigam a um esforço permanente de (in)formação, que resgata e/ou desenvolva competências e saberes que os capacitem a pôr em prática os tais diferentes modos de ensinar e aprender. Neste caso, considerando a relação com a língua, instrumental como esta se revela no acesso ao mundo.